Arte médica é um conceito amplo, podendo se referir tanto ao ato em si da abordagem diagnóstica e terapêutica, quanto da representação criativa dos fenômenos da anatomia, fisiologia e patologia humanas através da arte sob suas inúmeras formas
Paralelos
Baseando-se no conceito acima, tanto a milenar arte rupestre como os painéis digitais que apresentamos neste trabalho, podem ser agrupados sob o mesmo grupo de representações artísticas dos fenômenos da vida, diferenciando-se, apenas, pelas peculiaridades do artista, seu veículo de expressão e sua época.
Exatamente à maneira de nossos mais longínquos antepassados, em vez de pigmento sangüíneo e cinzas espalhados com os dedos na laje fria das cavernas, hoje utilizamos a tinta mágica da eletrônica digital para registrar e transmitir nossa experiência de vida pessoal e a cultura coletiva.
Curiosamente, podemos afirmar que continuamos a ser e agir de forma essencialmente igual há milênios: a única diferença é que sofisticamos a maneira como nossos impulsos mais legítimos e primitivos são satisfeitos através da cultura, nossa maior criação.
Um passeio pela história
Ao redor do mundo, tesouros arqueológicos ostentam verdadeiras jóias representativas da mais pura arte médica, muitas oriundas de períodos anteriores à própria existência da ciência médica.
É uma tarefa difícil, mas podemos resgatar algumas destas obras de arte apenas para ilustrar longitudinalmente a genialidade humana neste campo:
Primeira geração: a descoberta do registro gráfico
Arte rupestre do complexo de Lascaux na França, na qual o perfil do mamute com seu coração em destaque é, talvez, uma das mais antigas representações artísticas de órgãos internos de animais já encontradas pela arqueologia
Segunda geração: o registro imaginário
A ingenuidade caricata que reinou por muitos séculos na arte médica se explica pela sacralização do corpo humano e o conseqüente princípio da sua inviolabilidade. Durante um longo período da história, os artistas foram obrigados a um verdadeiro exercício de ficção na tentativa de representar seus segredos anatômicos internos
Terceira geração: o registro com realismo
Leonardo é o exemplo maior do impacto positivo sobre as artes plásticas proporcionado pela quebra da sacralidade do corpo humano.
A melhor compreensão da anatomia do homem produziu obras-primas e paralelamente abriu caminhos para notáveis avanços da então incipiente ciência médica
Quarta geração: a publicação impressa
A ciência explodiu graças, em boa parte, ao advento da comunicação impressa em escala após Gutenberg.
A imensa maioria dos médicos da atualidade estudou nos livros ilustrados pelo Dr. Frank Netter que produziu milhares de insuperáveis obras de arte em pinturas a óleo e aquarelas sobre os mais diversos assuntos
Quinta geração: a publicação eletrônica
Telas, paletas e pincéis transformaram-se em computadores e programas.
Os artistas médicos modernos, além da ciência e da estética, precisam assimilar fundamentos de tecnologia para explorar os recursos atuais de expressão, sendo o maior de todos a Internet, a rede mundial de computadores
Sexta geração: arte eletrônica interativa
A tecnologia evolui a passos largos: às maravilhas propiciadas pela mídia eletrônica como recurso de expressão, veio se somar a possibilidade de inclusão de animação e interatividade dos elementos digitais.
Abre-se, assim, um caminho cujo caráter revolucionário e aplicações potenciais sequer imaginamos ainda
Para muitos cientistas, foi exatamente a capacidade de abstração do cérebro dos primeiros hominídeos, aliada à característica única da espécie que é o polegar em oposição aos demais dedos, que teria moldado a evolução resultante no homem moderno.
Ainda mais interessante, é a constatação de que a expressão pictórica do mundo e das experiências diárias de nossos antepassados é muito anterior ao surgimento da linguagem, ou seja, podemos inferir que a capacidade (ou necessidade) de registrar o seu cotidiano é que originou todo o processo evolutivo da nossa espécie e, conseqüentemente, o próprio destino da vida do planeta.
Podemos afirmar, portanto, que a arte é uma das forças essenciais da vida na Terra.
Arte aplicada
Lato sensu, podemos afirmar que a ciência médica se ocupa da pesquisa, diagnóstico e terapêutica das questões da anatomia, fisiologia e patologia do corpo, da alma e até da sociedade humana.
Uma nova dimensão surge quando lançamos o conceito de arte aplicada às ciências médicas diante da velocidade do crescimento do conhecimento (o volume quadruplica a cada 2 anos, segundo alguns pesquisadores). A nossa proposição de transferência de conhecimento médico para painéis digitais interativos se alinha aos mais modernos preceitos de cultura de imagem e agilidade nos processos sociais e, principalmente, revoluciona diretrizes de aprendizado: a condensação de grandes volumes de texto em simples ilustrações eletrônicas interativas torna possível a sedimentação mais rápida e eficiente do conhecimento (o que é assistido é melhor e mais facilmente lembrado do que aquilo que simplesmente foi lido).
Estamos propondo uma literal inversão da tradição: em vez de privilegiar o registro em texto puro com apoio iconográfico secundário, redirecionamos o processo para o aumento da importância do registro artístico digital inteligentemente elaborado com imagens, movimento e interação. O apoio em forma de texto, passaria a existir na dimensão da necessidade.
Objetivo deste trabalho
As idéias desenvolvidas aqui pretendem demonstrar as vantagens da utilização das técnicas de arte eletrônica nos processos de registro, transmissão e assimilação do conhecimento médico.